FAQ
Perguntas Mais Frequentes
Nesta página estão listadas as dúvidas mais frequentes de quem pensa em iniciar a construção de um veleiro, e pretende construir um dos que estão disponíveis nesta página, ou no CD de projetos.
1. Os projetos do CD são detalhados o suficiente para construí-los?
R: Sim. Os projetos possuem níveis variados de detalhamento e de apresentação, mas todos permitem a construção dos veleiros, sem necessidade de outras fontes. Alguns projetos não especificam materiais, mas eu faço referência a outros projetos que tem detalhamento de materiais e são de dimensões e construção similares. Alguns projetos utilizam tabelas de offset para que se obtenha as medidas das anteparas, outros trazem medidas das anteparas diretamente nos projetos.
2. Por que não há barcos de aço nestes projetos?
R: Veleiros de aço são fortes e relativamente fáceis de construir. Mas aço é um material impróprio para pequenos veleiros devido ao alto peso. Chapas finas oferecem pouca resistência a impactos e à corrosão, e a espessura de chapa mínima para se utilizar num casco (2,5 a 3mm) levaria a um casco muito pesado. Bruce Roberts tem um projeto de aço de 22 pés, mas é um barco pesado, lento, de grande boca e muita segurança, para dar a volta ao mundo. Mas um barco de compensado naval é perfeitamente adequado para velejadas longas, até porque um barco pequeno permite a utilização de compartimentos estanques ou flutuação de emergência, que tornam o barco inafundável. Além disso, o compensado naval é um material fácil de trabalhar, resistente, leve e limpo. Aço não é para amadores.
3. O que é uma tabela de offsets?
R: Há duas maneiras de obter as medidas necessárias para construir as anteparas ou balisas de um barco: através de desenhos técnicos com medidas detalhadas das balisas, e através de uma tabela de offsets. Como o casco é curvo, fica difícil definir as medidas externas do barco, a não ser com base em seções transversais em certos pontos, em geral nas cavernas e anteparas. Assim, a forma do barco é definida pelo posicionamento e dimensões das balisas. Barcos de compensado naval em geral tem anteparas e longarinas como elementos estruturais, além da própria quilha. As medidas das balisas aparecem na tabela de offsets como coordenadas em x e y, sendo que a coordenada em x em geral se refere a distância horizontal entre o ponto da intersecção de dois planos do casco (no caso de cascos em V ou multichine) e a linha central do barco, e a coordenada y se refere a distância vertical entre a intersecção de duas linhas do casco e a linha d’água (ou a linha que tangencia o ponto mais baixo da quilha). Assim, a leitura da tabela de offsets permite obter as dimensões das seções transversais do casco em pontos definidos.
4. Será que eu consigo construir um veleiro?
R: Se você tem que perguntar, provavelmente está além de suas possibilidades… mas não desista, todo construtor teve que construir o seu primeiro barco, e a madeira é um material muito dócil. Comece com mobiliário, ou modelos, para ir pegando jeito e aprendendo o uso das ferramentas e as características de cada madeira. Visite construtores de barcos, converse com eles, veja os barcos e como foram feitos. Você vai se surpreender com barcos de extrema qualidade construído por amadores que nunca haviam feito nada semelhante antes. Um vizinho meu em Florianópolis estava construindo um Multichine 28 e o interior dele parecia de um hotel de luxo, tudo feito com compensado naval, resina epóxi e muita atenção aos detalhes. E ele era um dono de restaurante que, embora fosse habilidoso, não sabia nada de barcos a vela até então.
5. Qual o melhor projeto para construir?
R: Esta é uma pergunta muito comum, mas a resposta não é objetiva. Depende de muitos fatores, mas leve em conta os seguintes:
- Relação tempo disponível x vontade de velejar: Isso é importante. Você quer passar os próximos 3 anos construindo um barco, sacrificando todo o seu tempo livre até lá? Ou você quer construir um barco nos fins de semana e estar em 1 ano, 1 ano e meio na água curtindo seu veleiro? Se você não vai dar a volta ao mundo nele, e vai velejar em águas abrigadas, tavez valha a pena escolher um projeto mais simples, de fácil construção.
- Aplicação real do barco: todo mundo quer um barco rápido, capaz de cruzar o cabo Horn e ainda ter todo o conforto de casa, mas é preciso ser muito racional na hora de escolher um barco para construir. Defina o que você quer dele, que tempo realmente terá para velejar, e onde velejará. Se você mora a beira de uma grande lagoa, construir um barco de quilha de patilhão com calado de quase 2 metros capaz de velejar na convergênca antártica é uma estupidez, por mais que você admire os barcos de Colin Archer. Numa lagoa você precisa de baixo calado, bolina retrátil para poder encalhar às margens para um piquenique, e muita área vélica em especial em lugares de pouco vento, e você pode abrir mão de pesados lastros e dar preferência a estabilidade de desenho. Para velejadas costeiras, você precisa dar atenção maior a estabilidade, ao desenho do casco, e definir seus objetivos: regatas ou passeios? Popas largas em cascos de planeio oferecem boa velocidade, mas velejando com ventos fortes pela popa e muita ondulação espelhos de popa muito grandes podem ser problemáticos. Se você quer velejar no mar, e pretende enfrentar tempo ruim, preste atenção a estabilidade e segurança, que envolve vários fatores.
- Complexidade de construção: você nunca construiu nem mesmo uma casinha de palitos de picolé, e agora quer construir um barco. Pense então num projeto voltado a simplicidade de construção, e que permita acomodar eventuais erros de construção. É importante também considerar a simplicidade do desenho do barco: quanto menor for, menos peças e mais fácil. Cascos multichine são mais simples, e quanto menos quinas mais fácil, em geral. Um barco de fundo chato é mais simples ainda.
- $$$: ah, este é sempre o grande fator… lembre-se da regra: ou você faz no prazo, ou faz dentro do orçamento, nunca os dois. Se o dinheiro é limitado, seja um visitante assíduo de desmanches, aprenda a fazer ao invés de comprar, e abandone a pressa. Escolha um projeto que utilize menos material, e reduza o tamanho. O custo aumenta na proporção do quadrado do comprimento, e as ferragens são progressivamente mais caras. Com um barco menor fica fácil comprar velas usadas para cortar e fazer velas menores. Lembre-se, defina exatamente do que você realmente precisa, e escolha o barco que atende melhor a suas necessidades reais.
Como se vê, escolher um projeto não é tão simples. Uma boa sugestão é você estudar bastante os projetos, estimar custos e avaliar bem suas reais possibilidades. E não deixe de conversar com gente que entende do assunto, em especial quem já construiu ou está construindo um veleiro.
5. Qual o método mais apropriado para um veleiro construído artesanalmente?
R: Eis uma pergunta que não tem resposta pronta. Depende do que você considera mais importante: é tempo de construção? Custo? Complexidade?
Há 4 métodos principais que amadores utilizam na construção de barcos de madeira: compensado naval quinado sobre balisas (multichine), compensado naval sobre balisas com casco redondo (round bilge), stitch-and-glue (costure-e-cole) e strip-planking. Como são estes métodos?
- Compensado naval sobre balisas : o método mais comum, e que abarca todos os projetos do CD que você pode adquirir aqui, se baseia na fixação, com adesivo epóxi ou fenólico, de placas do casco sobre balisas ou anteparas, e longarinas, depois selado com resina epóxi com ou sem fibra de vidro. É barato, relativamente simples, e resulta em barcos leves e robustos.
- Compensado naval com casco redondo: semelhante ao método acima, mas o compensado é cortado em tiras e aplicadas diagonalmente, em duas camadas geralmente. Vantagem: casco redondo, oferece menor resistência. Desvantagem: tempo de construção muito maior, maior custo.
- Strip-planking: neste método, tiras de cedro ou similar são aplicadas longitudinalmente sobre balisas, e coladas uma à outra. Resulta em cascos robustos, leves, e permitem que se construa, em casa, cascos de curvas complexas que seriam muito difíceis de construir por métodos tradicionais, como tabuado sobre cavernas moldadas a vapor.
- Stitch-and-glue: Método que só foi possível com o advento da resina epóxi e do compensado naval. Placas do casco são cortadas e unidas uma a outra com arame de cobre ou até braçadeiras de plástico (zip-tie). A união das chapas é feita com fitas de fibra de vidro e resina epóxi. A vantagem é a rapidez na construção, ótimo aproveitamento do espaço interno e baixo custo. Desvantagem: consome mais resina epóxi, o que em parte é compensado pela menor quantidade de madeira bruta (longarinas, vaus, reforços nas anteparas para fixação do casco, etc).
6. Qual o melhor material: fibra ou compensado naval?
R: O fato de que quase todos os veleiros construídos hoje sejam feitos de GRP (plástico reforçado com fibra de vidro, ou simplesmente fibra de vidro) não quer dizer que este é o melhor material para barcos construídos artesanalmente. Quando a fibra de vidro chegou ao mercado, rapidamente substituiu a madeira como material de contrução de veleiros, especialmente barcos feitos em série. Isto porque os barcos da época faziam água, exigiam manutenção cuidadosa e tinham durabilidade limitada, mesmo os de compensado naval, pois as colas da época não eram completamente à prova d´água. Com o surgimento das resinas epóxi, a questão da durabilidade dos cascos de compensado naval foi resolvida. Mas afinal, compensado naval é melhor que fibra de vidro? Vejamos:
- A resina poliéster, apesar de resistente, é pesada (densidade em torno de 4 toneladas por metro cúbico, enquanto a madeira tem em média 0,75 toneladas por metro cúbico), precisa ser muito bem isolada da água, pois é sucetível à osmose, e é difícil de lidar, devido aos odores e ao pó de lixa extremamente perigoso. Por outro lado, é ideal para produção em série, a partir de moldes. Não há como competir com a fibra quando o assunto é velocidade de cosntrução (considerando que você já tem os moldes).
- O compensado naval é leve (madeira bóia, jogue um pedaço de fibra na água para ver o que acontece), muito resistente devido ao posicionamento das fibras de cada camada, e com resina epóxi, é completamente impermeável. Com uma fina camada de fibra de vidro impregnada com resina epóxi, o compensado tem excelente resistência a abrasão. Além disso, devido a baixa densidade da madeira, é possível utilizar chapas de espessura maior, que por seu maior momento de inércia, tem mais resistência a flexão e ainda são mais leves que cascos de fibra de vidro.
- O compensado tem limitações de forma, só pode ser curvado em uma direção, por isso deve-se usar construção multichine ou aplicar tiras diagonais sobre balizas para ter um barco de casco curvo. Cascos multichine oferecem maior resistência ao movimento, mas um projeto cuidados pode minimizar este problema. A questão estética tem sua importância, há aqueles que não gostam de cascos multichine.
- Madeira é um material com excelentes características térmicas e acústicas, sem falar que a madeira é mais aconchegante, especialmente no interior da cabine (há certos barcos de fibra que parecem com o banheiro da minha casa, com toda aquela fibra branca).
- Compensado naval é ideal para construção artesanal, a madeira é dócil, leve, fácil de cortar, furar e colar. A resina epóxi não tem cheiro forte, e por não usar solventes é bem menos tóxica, em especial depois de curada.
É claro que barcos de fibra sempre terão seus defensores. Roberto Barros, o Cabinho, projeta barcos com cascos feitos em fibra de vidro impregnada com resina poliéster isoftálica de grande espessura, na prática, são cascos de fibra com estrutura de madeira. Há sérias questões no que concerne a adesão da resina poliéster à madeira. Resina poliéster só adere a poliéster. A delaminação é um risco permanente. Nos barcos do Cabinho a contração da resina poliéster produz uma união mecânica entre o casco de fibra e o casco de compensado naval, mas nem de longe a resina poliéster se compara a epóxi. Ao que parece, substâncias presentes na madeira inibem a cura da resina que está em contato com a madeira, assim, a resina que penetra na madeira nunca chega a endurecer. São conhecidos os casos de delaminação em grandes placas de fibra de vidro que se soltam de cascos de barcos antigos, construídos antes das resinas epóxi. No caso da resina epóxi, por aderir muito bem em diversos tipos de superfície (metal, madeira, etc) a resina que penetra na madeira funciona como milhões de micro “garras” que prendem nas fibras e impede o descolamento da mesma. Além disso, a resina epóxi é mais flexível que a poliéster,além de mais resistente, e por isso é possível trabalhar com camadas mais finas. O maior custo da resina epóxi é compensado pela menor quantidade necessária para fibrar o barco.
7. Posso usar um compensado comum ao invés de compensado naval?
Há muitos mitos e idéias errôneas quando o assunto é construção de barcos. Um preconceito que se tem é de que somente compensado naval de cedro deve ser usado na construção de embarcações. A diferença entre compensado naval, tanto de pinus, virolinha e cedro e compensados comuns, é que estes tem nós e vazios entre as camadas de compensado. Estes defeitos podem ocasionar falha do material quando ele for curvado para se conformar ao desenho do casco, em especial na proa, próximo à roda de proa, onde em geral o compensado é curvado e torcido. Mas em anteparas, mobiliário e reforços internos, e até mesmo no espelho de popa, pode-se usar compensado naval de qualidade inferior, ou até mesmo um bom compensado comum (desde que colado com resina fenólica). Há alguns compensados que são colados com cola branca, solúvel em água, e que portanto são impróprios para qualquer aplicação num barco. Entretanto, se for possível determinar que determinado compensado é feito com lâminas coladas com cola fenólica, então este compensado pode ser usado na construção naval. Como o compensado vai ser inteiramente selado com epóxi, ele não estará sujeito à ação da umidade. Vai manter suas dimensões e forma, e vai durar tanto ou mais que o casco de compensado naval.
Na verdade você pode até fazer o casco com compensado comum, só que se o compensado tiver algum defeito e rachar quando você estiver curvando-o, você vai perder uma placa de compensado, e vai gastar mais substituindo-o do que se tivesse usado uma chapa de compensado naval para começar. Além disso, especialmente na parte inferior da proa, o impacto das ondas e os esforços do próprio estaiamento do barco sobrecarregam bastante o casco, então é bom não economizar nesta área.
Mas lembre-se, resina epóxi em tudo, para selar completamente toda a madeira.




